Christian Bundt;Indústria;Macroeconomia;ISAE.
Escolha uma Página

Falar da indústria brasileira pode ser motivo de orgulho, pois é setor que emprega milhões de brasileiros. Mas também é motivo de preocupação quando se observam os números do setor em longo prazo e são comparados com outras grandezas (não serão examinadas questões internacionais nem o tema dependência). A participação do valor adicionado (VA) da indústria no produto interno bruto (PIB) brasileiro vem caindo nos últimos anos. Em 1997, representava 25% do VA total e quase isso do PIB total no Brasil. Observe a figura adiante para compreender melhor o comportamento nos últimos 10 anos.

Fonte: IBGE, ilustração: ISAE

Todas as grandezas cresceram no período, mas com desempenhos diferentes. O PIB e o VA total têm curva de crescimento mais acentuada que a do VA da indústria de 2009 a 2018, ou seja, a indústria perdeu espaço no PIB para outros setores. Em 2009, a indústria representava 22% do PIB; em 2018 foi pouco mais de 18%. Se for observada série histórica mais longa, se vê situação semelhante. Isto não seria um problema em intervalo maior e se o Brasil tivesse se desenvolvido sustentavelmente na mesma proporção.

Em perspectiva histórica, a indústria brasileira de base foi formada na era Vargas, preparando o arranque do desenvolvimento do país. Infelizmente, a indústria brasileira não recebeu a organização e o estímulo adequados por parte dos governos, que são os responsáveis por estas ações, na concepção de W. W. Rostow e W. A. Lewis (consagrados literatos do desenvolvimento econômico). Assim, alguns setores industriais avançaram no caminho tradicional do crescimento e trocaram de fase, em tempos diferentes e desconectados, enquanto outros não. Por fatores sociais e políticos, essa descoordenação não permitiu o desenvolvimento econômico adequado do ponto de vista teórico e paradigmático a outras nações, sem aproveitar ao máximo o que o processo de industrialização poderia ter dado à economia brasileira.

Os governos brasileiros falharam na missão de organizar adequadamente a consolidação da sociedade economicamente madura (onde a indústria já gerou o máximo de excedentes) e na condução da passagem para a sociedade de consumo em massa. Veja parte de tal fato na figura a seguir.

Fonte: IBGE, ilustração: ISAE

Percebe-se que a indústria de transformação perdeu espaço no VA industrial: em 2009 representava 60% e em 2018 representou 52% do total. Já a indústria extrativista crescia até a tragédia de Mariana (3T/2015); recuperou-se em 2017 e 2018; e em 2019 a tragédia de Brumadinho aponta nova queda no VA da indústria extrativista (consequentemente no VA total da indústria).

Na perspectiva teórica tradicional e histórica de nações economicamente desenvolvidas, há um caminho que precisa ser percorrido, diminuindo o tamanho da indústria extrativa e aumentando o tamanho da indústria de transformação, para posterior crescimento do setor de serviços. Isto pode ser visto na análise do PIB desses países (existem exceções). Quando o setor de serviços cresce ‘antes da hora’, a economia precisa de estímulos-extra, mais intensos e mais acertados para voltar ao rumo do crescimento. Entretanto governos fracos (financeiramente e/ou intelectualmente) não têm condições de fazê-lo ou o farão depois de muito tempo (novas gerações).

O caso brasileiro é emblemático, mas não é único. A desindustrialização precoce já ocorre desde os anos 1980. Houve certa reação no início dos anos 2000, mas ainda se tomam remédios amargos (e fracos) e se sentem as mazelas. O resultado está no gráfico: o VA da indústria não acompanha o PIB.

A baixa produtividade, inclusive na indústria, é motivadamente histórica, pois ao contrário dos países que lideraram a revolução industrial, no Brasil, a mão de obra não foi valorizada, pois as oportunidades de trabalho no campo ficaram escassas. O êxodo rural marcou a passagem do trabalho manual rural para o manual fabril, sem preparo prévio ou elaboração conjunta. Em geral, o capataz virou gerente e o peão virou o operário. Isto não é um problema. É história. Conhecendo esse passado, a ação de hoje precisa ser mais assertiva do que foi nos países onde a mão de obra já estava nas cidades e a economia já reunia condições logísticas e comerciais para o amadurecimento da economia. Por isso, ações em prol da educação, ciência, tecnologia e infraestrutura precisam de assertividade maior que a média.

Ponto de atenção é o crescimento da contribuição negativa da indústria de alta tecnologia na balança comercial nos últimos anos, apontada por Bresser-Pereira e Marconi desde 2008. Isto é resultado do baixo estímulo ao desenvolvimento local de ciência/tecnologia que o país pratica. Há problemas com o método de transferência (entrada) de tecnologia. No Brasil, normalmente a tecnologia chega pronta (foco no processo) e não é desenvolvida para aprendizado. Isso torna, em longo prazo, as empresas nacionais dependentes de quem inventa/pensa o processo. Novamente o governo não cumpre seu papel de ‘gerente’ da economia e permite que o país siga na periferia e dependente dos países ‘desenvolvidos’.

O gasto público maior que a receita não permite o domínio da “fúria tributária”, não estimula a real queda dos juros nem dá tranquilidade aos agentes financeiros. A reforma tributária nem está em boa marcha e já se falava na recriação da CPMF (retrofitada). A reforma da previdência está quase aprovada, mas a manutenção do regime de repartição reduzirá drasticamente a potência fiscal da reforma. O próximo presidente do Brasil, no final do seu mandato, já discutirá novo ajuste.

Os programas de incentivo à indústria, como a redução do IPI ou a desoneração da folha de pagamento, não são usados estrategicamente. É um grande jogo de lobby. A ‘Lei do Bem’ foi frustrada pela burocracia dos órgãos de controle.

Quais setores a incentivar? a vocação do Brasil é produzir carros e geladeiras? Ou usar a sua vasta biodiversidade para produzir fármacos? Por que construir rodovias se o custo logístico de outros modais é menor? Quanto da produção primária local é processada pela indústria nacional?

A questão tributária também contribui para a baixa produtividade. Perde-se tempo e recursos enormes na operação do complexo sistema e depois na recuperação de alguns impostos.

Esses são temas antigos do agir racional-instrumentalmente. Aí está, de fato, a proteção ao emprego de qualidade e à indústria nacional.

Artigo resumido publicado no:
Jornal Gazeta do Povo, em 19/10/2019 – https://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/a-industria-brasileira-e-a-baixa-participacao-na-economia-nacional/
Jornal Estado de Minas, em 19/10/2019 – https://www.em.com.br/app/noticia/opiniao/2019/10/19/interna_opiniao,1094047/a-industria-brasileira-na-economia-nacional.shtml