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Itália em alerta! Recessão… de novo?… “Arrivederci”!

08/04/2019

Itália em Recesso

 

O ano começa agitado para a Europa, uma certa perplexidade generalizada paira pelos ares do velho mundo. Muitas dúvidas sobre o potencial de crescimento econômico da região, a situação fiscal atual não deixa espaço para qualquer novo estímulo de emergência e para uma eventual tentativa de mitigar a desaceleração econômica.

Outro ponto importante envolve as eleições para o Parlamento Europeu, em maio próximo, que figura como um grande fator de risco político para a região. Nas próximas eleições europeias o Reino Unido, com “divórcio” agendado para daqui alguns dias, provavelmente já não participará.

Ainda assim os economistas otimistas da europa cravam em suas projeções um cenário de crescimento em 2019… puxado substancialmente por Espanha, Alemanha e França, mesmo com o viés negativo diante das várias incertezas que assombram o tema Brexit (saida do Reino Unido do Bloco Economico Europeu).

Diante de tantas incertezas que atualmente percorrem as grandes economias do Velho Mundo, eis que surge em pauta no Banco Central Europeu: a Itália!…, mas o que a Itália tem a ver com tudo isso?

País da bota… como a Itália é carinhosamente conhecida no mundo do futebol, com muita história, cultura, arquitetura, gastronomia de alta qualidade, setor industrial de extrema importância para a europa e, obviamente, o país do futebol tetra campeão mundial e de uma camisa tradicionalíssima!

Apesar de estar situada no centro-sul da Europa, em uma localização privilegiada, fazendo divisa com a França, Suíça, Áustria e Eslovênia, esse país incrível vive, há algum tempo, como uma interrogação para economia da Europa.

A Itália é a quarta maior economia da Europa, atrás apenas da Alemanha, do Reino Unido e da França, possui um diversificado parque industrial, que está concentrada no norte do país, especialmente no chamado “Vale do Rio Pó”, localizado entre as cidades de Milão, Turim e Gênova, conhecido como “primeira Itália” e uma economia agrária muito dependente dos subsídios governamentais ao sul do país.

A preocupação geral dos governantes da Comunidade Europeia é que Italia apresenta uma frágil estrutura política, que se mostra incapaz de formar um governo que permaneça no poder até o final do mandato. O regime político vigente no país é uma república parlamentarista, na qual o presidente é eleito indiretamente pelo parlamento (senado e câmara de deputados) que, por sua vez, escolhe o primeiro ministro (também submetido à aprovação do parlamento).

Desde 1948, quando foi promulgada a constituição, a Itália já teve 63 governos e nenhum deles conseguiu terminar o mandato de 5 anos. Atualmente, o país enfrenta grandes dificuldades para seguir com a reforma fiscal, trabalhista e política, tão necessárias para melhorar a competitividade e novamente impulsionar o crescimento.

A dívida pública da Itália é assustadora e se mantém acima de 130%  do PIB (Brasil por exemplo fechou 2019 com 77% do PIB), acendendo o alerta vermelho e impondo com urgência a necessidade de um forte ajuste fiscal.

Outro fator de risco para a situação econômica do “pais da bota” é a elevada inadimplência no sistema financeiro, resultado de duas suposições:

  1. A primeira baseada nos fundamentos econômicos tradicionais, em que o frágil crescimento econômico dos últimos anos afetou a saúde das empresas, consequentemente manteve a taxa de desemprego em patamar elevado, o que gerou o problema da inadimplencia.
  2. A segunda leva em consideração que o sistema bancário italiano está repleto de empréstimos de baixa qualidade (assim como nos EUA em 2008), o que expõe toda a Europa a risco elevado de uma nova crise global. O governo já fez aportes aos bancos em situação mais delicada, mas parece que desta vez o problema pode ser maior e exigir maiores aportes.

Esse conjunto de fatores colocam a Itália entre os países pouco favoráveis para se fazer negócios. Está mal colocada no ranking “Doing Business” do Banco Mundial, na 51ª posição, a pior entre os países desenvolvidos da Europa e entre os mais fracos comparativamente com os demais da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Algumas medidas no sentido da criação de condições para melhorar a competitividade foram adotadas nos últimos anos, tais como a abertura do setor de energia, mas as expectativas para o crescimento continuam baixas. A taxa de desemprego permanece acima de 10% e é muito mais elevada dentre os jovens (próxima de 40%), o que potencializa o crescimento de partidos populistas.

Apesar do esforço fiscal efetuado pelos governos desde a crise de 2009, que vem reduzindo o déficit nominal, esses resultados positivos têm sido inferiores aos requeridos para reduzir a relação Dívida Bruta / PIB (produto interno bruto), somente conseguindo estabilizá-la.

Por outro lado, o país foi bastante beneficiado com a redução dos custos de captação na Europa, ocorrida com o CDS (credit default swaps) em patamar mais favorável (reflexo da estrategia de manutenção do programa de compra de títulos do Banco Central Europeu), o que ajuda de maneira expressiva na redução natural da dívida pública, entretanto a expectativa de crescimento mais fraco nos próximos anos e a possibilidade de que o governo precise socorrer os bancos aumenta os riscos para trajetória de queda da dívida pública.

As novas regras definidas pelo governo italiano exigem um nivel de responsabilidade onde o Estado deve equilibrar as suas receitas e despesas ao seu orçamento. O conteúdo da lei orçamentária tem por objetivo assegurar o equilíbrio e a sustentabilidade da dívida pública e devem ser estabelecidos por legislação aprovada pela maioria absoluta dos membros de cada Câmara, em conformidade com os princípios estabelecidos com uma lei constitucional. Na contramão, a pauta populista do novo governo é o principal sinal de alerta e provavelmente deve colocar os gastos em trajetória crescente novamente. Essas propostas iniciais são incompatíveis com a agenda de redução do déficit.

Um risco-chave, então, é o conflito entre o governo populista da Itália, que quer gastar mais em bem-estar social, e a Comissão Executiva da União Europeia, que está exigindo que a Itália reduza seu déficit orçamentário dentro das regras para os países que fazem parte da Zona do Euro. O perigo é se o governo italiano ignorar as exigências da comissão europeia e persistir em déficits maiores.

Nesse contexto, a Itália vive um momento econômico parecido com o que viveram outros países do Velho Mundo como Grécia, Espanha e Portugal, que também mantêm percentuais da dívida pública/PIB em níveis muito altos (os sinais de problema da economia da Itália parecem mais relevante que os demais), além do viés político que não sinaliza um plano sustentável de recuperação.

É possível inferir que a Itália sofre de problemas muito similares aos do Brasil: baixo crescimento estrutural, morosidade da justiça, burocracia exagerada e um setor público com elevados custos trabalhistas.  Parece que nós brasileiros já conhecemos bem esse filme, principalmente pelo aspecto político. Apesar da distância entre Itália e Brasil e de realidades aparentemente diferentes, somos parecidos em vários aspectos. O comportamento parece algo evidente, talvez pela influência histórica exercida pela grande colônia aqui presente. A embaixada da Itália acredita que algo em torno de 18 a 23 milhões de brasileiros sejam descendentes de italianos, outros institutos de pesquisa dizem que este número é bem maior, em torno de 15% da população, colocando-nos como a principal população de emigrantes italianos.

A cultura, a comida, as influências positivas e também negativas estão muito presentes por aqui. Mas… existe uma coisa que a Itália ainda precisa nos igualar: a quinta estrela na tradicional e bela camisa da “squadra azzurra”. Neste quesito ainda estamos na frente!

Fontes de Pesquisa:

Bloomberg, DEPEC – Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Banco Bradesco, Report Economico Europa Banco Santander, Report Economico Citibank, OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Banco Mundial, El Pais, Corriere Della Sera e La Repubblica.

Mauricio Marchesini Carvalho Atualmente está na Direção de Transformação de Finanças como Chef de Projet Finance do Grupo Renault na França. Possui experiência de 18 anos na área financeira, tendo atuado nas áreas de controladoria, planejamento financeiro e tesouraria nas funcões de Head de Tesouraria e Seguros na Renault do Brasil,  Gerente Financeiro Sênior para Região Américas na Faurecia, Coordenador de Operações Estruturados do Grupo Boticário, Consultor Financeiro na Accenture e Trainee da Kraft Foods. Atuou como Vice Presidente do IBEF-PR gestão 2016/2019, Diretor Executivo do Instituto Renault 2014/2019 e Tesoureiro da Aliança Francesa 2017/2019.  

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